Enquanto houver vidro

19:48 Matheus Abreu

Atsuko says yaong | via Tumblr
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Não gosto de me arrepender. Nunca gostei. Nunca resolveu nada. Tenho esses pensamentos maldosos dentro da minha cabeça, essa esquizofrenia lúcida que me persegue desde sempre e isso me faz pensar no maldito "e se...". Não vou me arrepender, prometo. Prometa anatelo e as aulas de biologia. Meiose e mitose e tu mandando eu estudar. Replicando DNA e RNA e eu imaginava crianças gordinhas, cabelos escuros e olhos claros numa dosagem perfeita da gente. Não devia, eu sei. Mas tu mandavas eu estudar. 1001 beijos em troca dos meus resumos. Sempre imaginei amor assim. Protocooperação eu dizia, porém nunca fomos dependentes. Fogo de palha disseram.


Não gosto de esquecer, mas me forço a isso. É uma tentativa inútil, é sinônimo de frustração. Frustrado no meio de tantas expectativas, acho que não devo me preocupar mais com isso. Não é a primeira vez, não é a última. "Somos infinitos" Charlie escreveu. Na hora, parece que tudo vai durar pra sempre e como eu queria que durasse. Eu sabia quem eu amava sentado no chão do trem. Parecia amor eterno. Não me arrependo, já disse. Em contraposição, temos Hazel e Gus mensurando infinitos. O nosso foi curto demais e talvez eu me arrependa.

Não gosto de dar o braço a torcer. Gritei teu nome e engoli isso. Assim como engoli teus defeitos, teu narcisismo e teu egoísmo. Sinceridade tu dizias. Desculpa para tua inconveniência. Engoli tuas mentiras e teu beijo. Fechamos os olhos e adiamos a dor.

Não gosto de te criticar. Tudo que tenho é amor e foi tudo que eu consegui dar. Se não foi suficiente, paciência. Aprendi a ser paciente te vendo inquieto. Te critico para quebrar a ilusão de que eras perfeito. Nunca foste, nem eu fui. Mas para mim, eras. Éramos fortes e seguros no meio de toda a pressão e insegurança que nos fora imposta.

Não gosto de cobrar, mas te cobro uma resposta. Ainda espero uma resposta sobre quando precisei usar pontos finais. Apenas sinalizadores azuis e silêncio. Temo o silêncio. Não me arrependo, então. Aceito minhas escolhas. Gostavas de física, eu lembro. Somos dois polos positivos. Atraídos por engano. Queria cantar que costumava te conhecer quando éramos jovens, que tu sempre esteve em meus sonhos, que posso te esperar. Não posso. Se eu te ver em lugares estranhos, filmes, revistas, não te conheço. Não sei quem és. Estou portanto escrevendo sobre uma ilusão.

Gostava de te ver me olhando, mas eu olhava para o espelho. Gostava do teu beijo, mas não lembro do gosto. Gostava do teu abraço, mas sinto frio. Gostava da tua voz, não escuto nada. Gostava da tua mão na minha, só encontro meu telefone. Gostava do teu sexo, não o senti.

Escrevo sobre memórias que não me pertencem. Sobre lugares que nunca fui, meu amor por Nova Iorque. Sobre livros que nunca li, filmes que nunca vi, musicas que não ouvi. Pessoas que nunca fui, que nunca pertenci. Amores que não senti. Escrevo sobre nada e agora tudo está em paz.

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